
A renda elevada e o alto padrão de consumo transformam Brasília na mais promissora cidade para investimento de grifes nacionais e estrangeiras
A elite brasileira encheu as malas com fraques, cartolas de feltro, vestidos Christian Dior e Balenciaga, estolas macias, joias em profusão e partiu para o Planalto Central disposta a se divertir no baile de gala promovido pelo casal Kubitschek para marcar a inauguração da capital. Durante muitos anos foi assim: o luxo precisava ser trazido na mala para Brasília. A cidade não contava com um comércio capaz de suprir sua notável produção de festas, cerimônias e feiras de vaidades.
Diminuir a distância entre as aspirações de luxo e as disponibilidades reais do mercado brasiliense seguidamente exigia operações complicadas. Na época em que o falecido senador Antônio Carlos Magalhães reinava em Brasília, por exemplo, ele costumava receber um alfaiate da grife italiana Ermenegildo Zegna, sua preferida para os ternos e gravatas e que até 1998 não tinha lojas no Brasil. O alfaiate tirava as medidas do senador e de boa parte da bancada carlista do Congresso e voltava à Itália para confeccionar as encomendas dos elegantes parlamentares.
Hoje a situação é outra. Brasília tem 2,6 milhões de habitantes, já ostenta o maior PIB per capita do país (R$ 40.696 por ano, três vezes mais, portanto, que a média brasileira) e entrou no radar do mercado do luxo. Esse segmento movimenta R$ 6 bilhões por ano no Brasil e cresce a um ritmo de 5% a 10% anuais. Um estudo feito pelo instituto de pesquisa alemão GFK e pela consultoria brasileira MCF, especializada no consumo de alta renda, mostra que a Capital Federal se tornou essencial para quem se dedica a vender produtos sofisticados. Para 47% dos empresários entrevistados – de um universo de 102 companhias de luxo ouvidas na pesquisa –, Brasília é considerada a mais promissora das apostas.
A Ermenegildo Zegna já aportou na capital com sua quinta loja brasileira. “Nossa expectativa é que ainda neste ano ela atinja o mesmo faturamento da franquia carioca”, diz o vice-presidente da Zegna na América Latina, Alberto Candellero, sem revelar valores. Perto de completar 100 anos e sob o comando da quarta geração da família, a Zegna ocupa um espaço de 230 metros quadrados dentro do Shopping Iguatemi, recém-inaugurado no Lago Norte. Para assegurar um tratamento diferenciado aos clientes que preferem discrição no momento da compra, a grife tem em Brasília uma espécie de sala VIP, batizada de Luxury Room. “Temos uma clientela significativa no Congresso e na Esplanada dos Ministérios”, diz Candellero.
A estreia do Iguatemi no Cerrado, com seu 12º shopping center brasileiro, confirma a tendência do mundo do luxo em mirar a capital. O novo shopping demandou um investimento de R$ 182 milhões e tem entre seus trunfos o retorno ao Brasil da sofisticada marca inglesa Burberry, reconhecida mundialmente pelo xadrez que estampa bolsas, casacos e até galochas. A grife já teve loja em São Paulo, mas deixou o país em 2004. Além dela, estão no Iguatemi outras típicas etiquetas do poder mundial, como Louis Vuitton, Salvatore Ferragamo, Mont Blanc e Missoni. Especialistas dizem que a concentração de marcas de luxo em um mesmo espaço tende a aumentar o gasto médio das compras nessas lojas – atualmente esse valor já ultrapassa os R$ 3 mil.
Até empresas tradicionalmente voltadas para públicos mais populares estão entrando no mercado de artigos premium para aproveitar o poder aquisitivo de Brasília. É o caso da Zelo, loja paulista de enxovais, que fez fama à base de preços baixos. Na capital ela lança sua “concept store”, a Zelo Select. Com investimento de R$ 1,5 milhão e ambiente projetado pelo arquiteto Arthur Casas, a loja oferece jogos de cama de fio egípcio e do Paquistão. “Focamos principalmente em artigos de cama e banho com tecidos importados”, diz o sócio diretor da marca, Mauro Razuk.
Assim como o varejo de luxo, também ganha força em Brasília o mercado imobiliário de alto padrão. Construtoras que concentram empreendimentos elegantes no Rio de Janeiro e em São Paulo, como Rossi, Gafisa e Brookfield, têm se voltado para o Centro-Oeste. Para entrar no mercado brasiliense, entretanto, essas empresas precisam buscar espaço além dos limites do Plano Piloto, tombado pela Unesco. Assim, a expansão imobiliária vem se deslocando para as cidades-satélites.
Localizado a 20 quilômetros do centro de Brasília, o distrito de Águas Claras – cidade-satélite novata que ganhou esse status em 2003 – coleciona números inéditos. Ali se encontra hoje o maior canteiro de obras da América Latina: 240 edifícios foram entregues até o início de 2008 e outros 750 estão planejados ou em execução.
A Brookfield Incorporações, que desembarcou timidamente em Brasília em 1995, hoje não tem dúvidas em eleger a capital como seu mercado preferencial. Dos R$ 2,7 bilhões em lançamentos no ano passado, 44,5% estão no Planalto, onde a empresa já construiu 110 prédios e tem outros 44 em execução. “A velocidade de absorção dos empreendimentos em Brasília é altíssima”, diz Fernando Maia, diretor da construtora no Centro-Oeste. Em média, segundo ele, o mercado do Distrito Federal leva seis meses para comprar 100 unidades de alto padrão, enquanto em outras cidades esse período sobe para um ano.
Embora ainda carreguem a imagem da exclusão, as cidades-satélites exibem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) invejável. Até a mais pobre delas, Samambaia, tem um IDH maior que a média brasileira, 0,781. A cidade-satélite mais rica, Cruzeiro, tem IDH de 0,928. “É equivalente ao índice das melhores cidades do mundo”, afirma o professor Otto Nogami, do Insper (ex-Ibmec de São Paulo). Para ele, as cidades-satélites serão o caminho natural de expansão de Brasília, mesmo estando distante do Plano Piloto.
A última novidade do mercado imobiliário da capital é o Setor Noroeste, que as construtoras ambicionam transformar no primeiro bairro sustentável do Brasil. Última porção do Cerrado junto ao Plano Piloto, o bairro foi projetado pela Companhia Imobiliária de Brasília, a Terracap, estatal fundada há 39 anos. São 20 quadras, suficientes para abrigar 40 mil habitantes. Os prédios deverão ser alimentados por energia solar, com reaproveitamento da água da chuva, soluções de circulação natural do ar e uma rede de coleta de lixo a vácuo – mesmo sistema adotado em Barcelona. Um apartamento de três dormitórios no Reserva Noroeste, da Brasal Incorporações, custa na planta R$ 1 milhão. O preço médio do metro quadrado varia entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, o mesmo valor de um apartamento de alto padrão no bairro Vila Nova Conceição, um dos mais nobres de São Paulo.
PARAÍSO DAS GRIFESConsumidores nas escadarias do Pátio Brasil (à cima), um dos shoppings que se beneficiam da expansão do consumo de luxo na capital. O mercado abriu espaço para as grifes estrangeiras – e para exportadores, como a designer de joias brasiliense Carla Amorim